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Automedicação

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Entrevista com o farmacêutico Rogério Hoefler, do Conselho Federal de Farmácia, sobre a automedicação e a atuação do profissional farmacêutico.
 

Painel: Hoje falo com Rogério Hoefler, farmacêutico do CEBRIM (Centro Brasileiro de Informação sobre Medicamentos) do Conselho Federal de Farmácia. Tudo bem, Rogério?

Rogério: Tudo bem, Rosa? Bom dia. É um prazer poder estar aqui, desenvolvendo sobre esse tema que é o uso racional de medicamentos, que é um tema que eu lido no dia-a-dia há alguns anos e considero de grande relevância pra sociedade como um todo.

Painel:  Então pra começar, eu queria que você comentasse conosco: Quais são os perigos da automedicação?

Rogério: Inicialmente, eu gostaria de falar brevemente sobre automedicação ou autocuidado com uso de medicamentos. Naturalmente o ser - humano busca soluções para seus males, seu mal-estar, uma dor e isso é intrínseco do próprio ser - humano. De modo que, automedicação não é de tudo ruim, claro que, a automedicação quando ela não é adequadamente orientada, quando não há um acompanhamento de um profissional habilitado, incorre em vários problemas para o paciente, para o usuário do medicamento. Como por exemplo, o mascaramento de uma doença que poderia eventualmente ser trivial, ser uma doença simples em um primeiro momento, mas que por não ser adequadamente tratada, os sintomas são reduzidos pelo uso do medicamento, ocorre um agravamento e a pessoa só vai buscar um médico depois que a doença já está mais grave.

Painel: Rogério, essa é uma prática normal e natural, inclusive nas farmácias não há um cuidado de prescrição médica, eles já fornecem esses remédios. Que ações vocês estão tomando com relação a isso?

Rogério: Bom, um primeiro aspecto importante, como eu disse anteriormente, é a orientação profissional. Um problema que nós temos nas farmácias no Brasil, de modo geral, é muitas vezes o farmacêutico não estar presente. Isso é um problema muito grave e inclusive nas farmácias públicas também isso acontece. De modo que, o usuário do medicamento vai a uma farmácia e sem ter uma orientação adequada ele adquire um medicamento, algumas vezes até medicamentos que requerem prescrição médica, mas eles o fazem sem ter a prescrição. Então a busca por parte da sociedade, a população em geral, deve exigir a presença do farmacêutico que, em verdade, a lei estabelece que ele deveria estar lá. Então esse é um primeiro passo, a presença de um profissional em um estabelecimento farmacêutico, a partir do momento que, a farmácia não deveria ser considerada um simples comércio, mas sim um serviço de prestação de serviço de saúde.

Painel: Rogério, tem um outro problema que eu considero, assim, da maior importância, que são as publicidades nas televisões, nos rádios e que no final eles colocam de tal forma, corrido, que aquilo pode incorrer em problemas, por exemplo, quem está com problema de dengue, que não pode tomar aquele tipo de remédio. Como controlar isso? Como fazer com que isso não ocorra mais, que propaganda de remédio fosse totalmente proibido?

Rogério: Bom, o controle da propaganda de medicamentos, na verdade existe regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre o assunto e há fiscalização também. Claro que não é o suficiente para controlar totalmente essa prática. Inclusive, a propaganda de medicamento, além dos medicamentos de venda sem prescrição, ela atinge os prescritores, isso talvez seja de maior gravidade inclusive, porque muitos prescritores, eles na verdade têm como base uma informação ou a indução da própria indústria farmacêutica para prescrever medicamentos, de modo que, o medicamento que seria o mais adequado não é usado e sim aquele que tem algum benefício para o prescritor ou para quem vai comercializá-lo.

Painel: Bom, no caso nós estamos falando da Dengue, que é um problema que está muito incidente no nosso país, essa semana mesmo eu vi que só no estado de Goiás, tem quase 130 mil casos de Dengue. E aí? É uma doença que muitas vezes pode parecer uma gripe, a pessoa vai, toma remédio que não tem nada a ver e as implicações são realmente graves. Como, a partir de agora, a gente dá um conselho ou alguma coisa que a gente pudesse atingir, é lógico que a Internet é um veículo que atinge muita gente, mas ainda não atinge aquela pessoa que não pode nem pagar um médico. Como é que a gente faz?

Rogério: Bom, é um papel dos governantes das Secretarias de Saúde, de orientar, de educar a sociedade, a população com relação aos riscos e quais medidas a serem tomadas no caso de suspeita de Dengue. A primeira coisa é procurar, na verdade, um posto de saúde, porque é um tipo da doença que o serviço público está, pelo menos em tese, apto à atender adequadamente a população. Um aspecto importante é não se automedicar, especialmente medicamentos que possam agravar sangramentos, hemorragias, porque um dos maiores problemas da Dengue atualmente é o subtítulo da Dengue, que é a hemorrágica. Então os pacientes não podem tomar de modo algum ácido acetilsalicílico que é a Aspirina, ou Dipirona, ou antiinflamatório como Ibuprofeno por exemplo, Dicoflenaco, porque esses medicamentos aumentam o risco de hemorragias, de sangramentos e podem agravar o caso da Dengue. O mais recomendado no caso é o Paracetamol porque ele não interfere com a coagulação do sangue, portanto não aumenta o risco de sangramentos.

Painel: Bom, de qualquer forma quem puder e conseguir é realmente procurar um serviço médico público, SUS, ou coisa assim. A indústria farmacêutica é fortíssima, todo mundo sabe disso. Como o conselho está normatizando ou fiscalizando essas indústrias hoje no Brasil? Quais ações vocês estão colocando em prática para inibir um pouco esse avanço voraz dessa indústria que não para pensar, na realidade?

Rogério: Bom, é uma boa pergunta e difícil de responder. Em primeiro lugar, na verdade, o Conselho Federal de Farmácia não atua nesta área, ele normatiza, regulamenta e fiscaliza o exercício profissional do farmacêutico, ele não tem gerência sobre o que as indústrias farmacêuticas fazem em termo de mercado, em termo de promoção de medicamentos. Isso seria mais um papel da própria agência regulatória e outras organizações, como o IDEC que é o Instituto de Defesa do Consumidor entre outras instituições. Por outro lado, o conselho por ser um órgão de farmacêuticos tem um serviço que é o Centro Brasileiro de Informação sobre Medicamentos. Há 20 anos nós atuamos com a promoção do uso racional do medicamento por meio da informação independente, porque nós sabemos que um dos principais fatores que leva ao mal uso do medicamento, por excesso ou não utilizar o medicamento, é por informação imprópria, informação com algum viés mercadológico ou uma informação desatualizada. Então o Conselho de Farmácia criou em 1992 o CEBRIM, e lá somos atualmente 3 farmacêuticos que por meio da disponibilização de informação independente para os profissionais da saúde nossa proposta é promover o melhor uso destes insumos.

Painel: Bom, como última pergunta. Existem números suficientes de farmacêuticos para cobrir todas essas farmácias no país inteiro?

Rogério: Não, temos excesso de farmácia. Na verdade, a farmácia no Brasil hoje tem um perfil de comércio e não de serviço de saúde, esse é um grande problema. Nós não precisamos ir muito longe, nós vamos ali na rua das farmácias, uma farmácia do lado da outra, aquilo lá é um absurdo, é desnecessário. Por um lado, ter mais de uma farmácia pode ser importante pela questão do preço, questão da concorrência e promover uma redução de preço, porém, para efeito de consumo de medicamento desenfreado isso é totalmente deletério, é problemático isso. Na verdade nós temos muitas farmácias para poucos farmacêuticos, essa é a verdade. Há uma discussão, que já dura alguns anos, em que o Conselho Federal de Farmácia defende a tese de que o Governo Federal, a agência regulatória, deveriam retornar a farmácia ao que era originalmente e como é em países desenvolvidos, propriedade do farmacêutico e um serviço de saúde para a população. Na verdade aqui no Brasil nós temos um comércio, em que o farmacêutico é contratado não necessariamente por todo o período, aliás, poucas vezes por todo período de abertura, embora por lei deveria estar lá o farmacêutico o tempo todo, de modo que há um completo desvirtuamento do sentido do uso do medicamento. Então na verdade em vez de aliviar o sofrimento, ao invés de ser usado para tratar, curar doenças, ele é utilizado como um bem que gera muito lucro. Aliás, a indústria farmacêutica está entre as 5 mais poderosas do mundo, porque medicamento é um insumo que é muito procurado, muitas pessoas inclusive chegam a deixar de se alimentar adequadamente, mas adquirem lá o seu multivitamínico, que na maioria dos casos é inútil.

  Painel:Bom, quero te agradecer Rogério por essa entrevista, eu sei que é um assunto bem complexo, muito mais teríamos a falar a respeito, mas eu acho que a partir dessa nossa conversa, a gente pode abrir pelo menos uma discussão a respeito que eu acho que é super importante. É um problema de saúde pública, é um problema econômico e é um problema de responsabilidade. Quero agradecer sua presença.

Rogério: Eu que agradeço a oportunidade e me coloco à disposição, a equipe do CEBRIM, Conselho Federal de Farmácia, quando houver o interesse em tratar do tema uso de medicamentos, que acredito que seja um tema importante porque as pessoas tomam medicamento, precisam de medicamento. E como esse medicamento está sendo adquirido, como ele está sendo prescrito, como está sendo utilizado? Então pessoas estão morrendo, estão deixando de serem curadas pelo mal uso de medicamentos. Então nossa proposta é colaborar um pouco, claro que consideramos nosso trabalho como uma formiguinha nesse contexto todo, mas nos colocamos à disposição naquilo que for útil.

Painel: Com certeza a gente vai voltar a conversar, e se você tiver um site que as pessoas possam entrar e obter mais informações, por gentileza nos coloque.

Rogério: Bom, o CEBRIM em verdade, é dirigido aos profissionais da saúde, até porque nós não temos uma equipe, uma estrutura grande o bastante para atender a população, até por isso não temos, por exemplo, um 0800 nós não teríamos condições de atendê-los. Mas para profissionais da saúde o nosso site é: www.cff.org.br e tem o link CEBRIM no lado esquerdo da página principal.

 

 

 

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Dr. Evaldo e Rosa

 

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